Imagine perceber um carocinho estranho no pescoço e, um mês depois, receber o diagnóstico de câncer, aos 31 anos... Foi o que aconteceu com Giselli Boldrin, que mesmo em meio a esse desafio gigante de lutar contra a doença não abandonou o desejo de um dia ser mãe, por meio do congelamento de óvulos.

A descoberta do linfoma e o congelamento de óvulos

Giselli conta que estranhou e começou a investigar uma bolinha, um carocinho que apareceu em seu pescoço, de um dia para o outro. Incansável na busca por respostas, ela foi passando de médico em médico (mais de cinco) e de diagnóstico em diagnóstico (desde um mau jeito da academia até a suspeita de tuberculose), quando recebeu a confirmação de um linfoma não Hodgkin.

Mesmo com o objetivo de começar a quimioterapia o quanto antes, sua médica não deixou de recomendar (quase que obrigar) que Giselli buscasse um especialista em fertilidade, o fertileuta, o que daria a ela o poder de decisão sobre preservar ou não sua fertilidade antes de iniciar o tratamento do câncer. Isso porquê, tratamentos oncológicos, como a quimioterapia, podem levar à infertilidade das pacientes.1

Giselli, assim como sua médica, não perdeu tempo. Ela passou por um processo extremamente rápido e realizou a coleta e o congelamento de óvulos, tudo isso em menos de 15 dias. Na mesma semana da coleta, ela começou o tratamento oncológico que vem realizando desde então.

"Eu tive muita sorte, porque jamais teria pensando na maternidade, em preservar minha fertilidade naquele momento, se eu não tivesse sido alertada pela minha médica", Giselli Boldrin


O congelamento de óvulos e embriões para pacientes de câncer

O caso de Giselli, infelizmente, não retrata o que em geral acontece com as mulheres que descobrem um câncer em idade fértil. A maioria delas não é informada, antes de iniciar o tratamento oncológico, de que podem ter como efeito colateral a infertilidade temporária ou permanente.1 Hoje, o método mais indicado de preservação de fertilidade em mulheres com câncer é o congelamento de óvulos ou embriões.1

Muitos médicos afirmam que não abordam o assunto proativamente com suas pacientes, pois buscam rapidez no início do tratamento para aumentar as chances de cura do câncer.2 Mas a Giselli e tantas outras pacientes são exemplo de como o procedimento pode ser realizado rapidamente, sem impactar na luta contra a doença.3


Onde buscar ajuda?

Se você se identificou com a história da Giselli e não sabe onde buscar ajuda, comece conversando com seu oncologista e pedindo o encaminhamento para um especialista em fertilidade. A Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) também disponibiliza uma lista de clínicas especializadas, que podem ajudar.

Vale ressaltar que o especialista mais indicado é o fertileuta, médico especializado em fertilidade, e não o ginecologista.

"Meu conselho é que as pessoas deem mais atenção aos sinais do seu corpo e sempre procurem ajuda médica ao notar algo fora do comum. Além disso, se você já recebeu o diagnóstico do câncer e, mesmo que não haja o desejo de ser mãe hoje, é melhor consultar um especialista em fertilidade e garantir a possibilidade futura de ter filhos", Giselli Boldrin


E se o paciente já tiver iniciado o tratamento?

Quem descobre os riscos de infertilidade apenas depois de ter iniciado o tratamento do câncer, deve saber que há outras medidas que podem ser adotadas, ainda que menos eficazes, e o fertileuta poderá ajudar.2

É sempre bom lembrar que não são todas as mulheres que se tornam inférteis após o tratamento do câncer.3,4 O congelamento de óvulos ou embriões é uma importante medida preventiva.5


A Giselli não para!

Além de cuidar do blog “Delas para Elas,” com dicas de beleza, casa e cozinha, Giselli ainda apresentou vários episódios na TV Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia), ajudando outras pessoas a compreenderem e a vencerem o câncer. É bonito demais o trabalho dela!


Referências

  1. Lambertini M, Del Mastro L, Pescio MC, et al. Cancer and fertility preservation: international recommendations from an expert meeting. BMC Medicine. 2016;14:1. doi:10.1186/s12916-015-0545-7.
  2. University of California. Breast cancer patients can freeze their eggs without delaying chemotherapy. Disponível em https://www.universityofcalifornia.edu/news/breast-cancer-patients-can-freeze-their-eggs-without-delaying-chemotherapy/. Acesso em 06/06/2018 às 11:30.
  3. Instituo Oncoguia. Fertilidade e mulheres com câncer. Disponível em http://www.oncoguia.org.br/conteudo/fertilidade-e-mulheres-com-cancer/10101/65/. Acesso em 05/06/2018 às 11:30.
  4. Northwestern University. Mulheres e câncer. Disponível em http://oncofertility.northwestern.edu/resources/mulheres-e-c%C3%A2ncer. Acesso em 12/06/2018 às 10:00.
  5. Cancer.net. Fertility Concerns and Preservation for Women. Disponível em https://www.cancer.net/navigating-cancer-care/dating-sex-and-reproduction/fertility-concerns-and-preservation-women. Acesso em 12/06/2018 às 12:58.

Então como conversar com seu oncologista sobre sua fertilidade?

Ainda que seu oncologista não aborde o tema da preservação da fertilidade espontaneamente, é importante que você esclareça isso com ele antes de começar o seu tratamento para o câncer. Pergunte a ele se seu tratamento irá te expor ao risco da infertilidade – e o que você pode fazer para evitar ou minimizar isso antes de fazer uma cirurgia, iniciar a quimioterapia ou a radioterapia, por exemplo.

Perguntas que você pode fazer para seu oncologista:

  • Meu tratamento para o câncer pode acabar com minhas chances de engravidar naturalmente?
  • A infertilidade, no meu caso, seria algo temporário ou permanente?
  • Existe algo que eu possa fazer antes de começar meu tratamento para aumentar as chances de ter um filho no futuro?
  • Devo falar com um especialista em fertilidade?

É melhor prevenir?

A decisão sobre preservar ou não a fertilidade é individual e só pode ser tomada por cada paciente (ou pelos pais, no caso de crianças e adolescentes com câncer).4 Apesar disso, ter acesso a um time multidisciplinar pode te ajudar a escolher o caminho mais adequado.1 Por isso, além de conversar com seu oncologista, você pode visitar um especialista em fertilidade – o fertileuta –, e buscar aconselhamento familiar e/ou psicológico, se possível.5 Esses passos podem te dar mais segurança na escolha, diminuindo as chances de que você se arrependa no futuro.

Alguns aspectos que você pode considerar na sua decisão:


Você pensa em ter um filho (ou mais filhos) ou quer ter a liberdade para tomar essa escolha no futuro?


Para você (e/ou para seu parceiro), ter um filho geneticamente atrelado a você é importante (um filho biológico)?


Como você se sente e enxerga a perspectiva de eventualmente não poder engravidar?

Como posso preservar minha fertilidade antes do tratamento oncológico?

Para mulheres, o procedimento padrão para a preservação da fertilidade é o congelamento de óvulos.5 O processo consiste na coleta de óvulos para congelamento, e todo o processo pode ser feito em cerca de duas semanas.6 As pacientes que têm um marido/parceiro também podem receber a recomendação para congelar diretamente os embriões (óvulos já fecundados via fertilização in vitro - FIV).7 Seu oncologista, associações de paciente e o serviço social ou a equipe multidisciplinar do hospital onde você diagnosticou o câncer podem te ajudar nesse processo. Você também pode acessar o site da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) para encontrar uma clínica perto de você e obter mais informações.



Referências

  1. Ajala T, Rafi J, Larsen-Disney P, Howell R. Fertility Preservation for Cancer Patients: A Review. Obstetrics and Gynecology International. 2010;2010:160386. doi:10.1155/2010/160386.
  2. American Cancer Society. Preserving Fertility in Children and Teens with Cancer. Disponível em https://www.cancer.org/treatment/treatments-andside- effects/physical-side-effects/fertility-and-sexual-side-effects/preservingfertility- in-children-and-teens-with-cancer.html. Acesso em 20/11/2017 às 10:53.
  3. Coleman SL and Grothey A. Should Oncologists Routinely Discuss Fertility Preservation With Cancer Patients of Childbearing Age? Mayo Clin Proc.2011 Jan;86(1):6-7 doi:10.4065/mcp.2010.0749.
  4. Lambertini M, Del Mastro L, Pescio MC, et al. Cancer and fertility preservation: international recommendations from an expert meeting. BMC Medicine. 2016;14:1. doi:10.1186/s12916-015-0545-7.C.M. Duffy, S.M. Allen. Fertility-preservation decision making among breast cancer patients: a qualitative study. Department of General Internal Med - Research, Brown University, Providence, RI; Department of Gerontology and Health Care Research, Brown University, Providence, RI. P-326 Wednesday, October 21, 2009.
  5. Lawson AK, Klock SC, Pavone ME, Hirshfeld-Cytron J, Smith KN, Kazer RR. Psychological Counseling of Female Fertility Preservation Patients. Journal of psychosocial oncology. 2015;33(4):333-353.

Mulheres que desejam postergar a maternidade

Converse com seu oncologista

Após o diagnóstico de um câncer, recomenda-se que os médicos discutam, o mais cedo possível, com todas as pacientes em idade reprodutiva, o risco de infertilidade e seu interesse em ter filhos após o câncer para ajudar com decisões informadas sobre a preservação da fertilidade. Se ele não trouxer esse tema para discussão de forma proativa, não tenha medo ou vergonha de iniciar o diálogo e nem de esclarecer qualquer dúvida sobre o assunto. Seu oncologista também poderá te encaminhar para um médico especialista em fertilidade, o fertileuta. É importante que tudo isso aconteça de preferência antes de você começar o tratamento do câncer.3

Visite um especialista em fertilidade, o fertileuta

É importante que você saiba o mais cedo possível sobre os riscos potenciais do tratamento para sua fertilidade e avalie suas escolhas a partir dali.

Quanto antes você tiver essa discussão, mais opções você terá para preservar sua fertilidade.2,3

A colaboração entre oncologistas e especialistas em fertilidade dão aos pacientes a oportunidade de um aconselhamento reprodutivo completo e em tempo.2

Se você não sabe onde encontrar um, peça uma indicação para seu oncologista.

Conheça as opções para preservação da fertilidade

Hoje, o tratamento padrão para mulheres com câncer que querem engravidar (ou que talvez queiram um dia) é o congelamento de óvulos (leia abaixo sobre a preservação da fertilidade masculina).2

O congelamento de óvulos dá as mulheres o poder de escolha de tentar engravidar (ou não) no futuro, por meio de uma fertilização in vitro. Meninas pré-púberes têm outra opção de tratamento, que deve ser discutida entre os pais e os especialistas médicos.4

Se você não congelou seus óvulos (ou embriões) antes de começar o tratamento do câncer, há outras medidas que podem ser adotadas ao longo do tratamento, e você também pode tentar engravidar naturalmente ou adotar, por exemplo.3

Informe-se e busque ajuda

Algumas mulheres relatam que o tempo é insuficiente para processar a informação do diagnóstico e tomar e uma decisão.5

Se essa for sua situação, busque as informações que serão mais relevantes para a sua escolha, dentro do tempo que tiver disponível, e aceite ajuda de outros profissionais da saúde, como psicólogos, se for possível.6


E quais os riscos e perspectivas de fertilidade para homens com câncer?

Homens diagnosticados com câncer também podem ter problemas de fertilidade decorrentes da doença (ex.: câncer de testículo) e/ou de seu tratamento.

Por isso, da mesma forma que meninas e mulheres em idade reprodutiva devem receber aconselhamento e tomar medidas para preservar suas chances de serem mães, os passos listados acima também valem para os futuros papais.

O tratamento padrão para homens adultos é o armazenamento do sêmen em um banco de esperma para uso posterior.2,7

As opções são diferentes para meninos e devem ser conversadas caso a caso. O ideal é que essa conversa ocorra o mais cedo possível.2


Referências

  1. Roswell Park Cancer Institute. Life Isn’t the Same: How Cancer Changes You. Disponível em https://www.roswellpark.org/cancertalk/201612/life-isnt-same-how-cancer-changes-you. Acesso em 20/11/2017 às 10:45.
  2. Lambertini M, Del Mastro L, Pescio MC, et al. Cancer and fertility preservation: international recommendations from an expert meeting. BMC Medicine. 2016;14:1. doi:10.1186/s12916-015-0545-7.
  3. Instituo Oncoguia. Fertilidade e mulheres com câncer. Disponível em http://www.oncoguia.org.br/conteudo/fertilidade-e-mulheres-com-cancer/10101/65/. Acesso em 20/11/2017 às 10:55.
  4. American Cancer Society. Preserving Fertility in Children and Teens with Cancer. Disponível em https://www.cancer.org/treatment/treatments-andside-effects/physical-side-effects/fertility-and-sexual-side-effects/preservingfertility-in-children-and-teens-with-cancer.html. Acesso em 20/11/2017 às 10:53.
  5. C.M. Duffy, S.M. Allen. Fertility-preservation decision making among breast cancer patients: a qualitative study. Department of General Internal Med - Research, Brown University, Providence, RI; Department of Gerontology and Health Care Research, Brown University, Providence, RI. P-326 Wednesday, October 21, 2009.
  6. Lawson AK, Klock SC, Pavone ME, Hirshfeld-Cytron J, Smith KN, Kazer RR. Psychological Counseling of Female Fertility Preservation Patients. Journal of psychosocial oncology. 2015;33(4):333-353. doi:10.1080/07347332.2015.1045677.
  7. Instituto Oncoguia. Fertilidade em pacientes com câncer de testículo. Disponível em