E por onde começar? Olhos, inteligência e personalidade: o que de fato herdamos geneticamente?

Antes de começarmos é preciso entender o que é fenótipo. Fenótipo nada mais é do que o conjunto de características visíveis de um indivíduo.2 Hoje se sabe que o fenótipo é resultado da ação de múltiplos genes, que interagem com diversos fatores ambientais (desde cultura, nutrição até temperatura), levando uma pessoa a ser quem é.2

Isso significa que seu filho pode ser gordo ou alto, não só porque o doador do esperma (ou você) tinha essas características, mas também porque ele se alimenta de determinada forma, se exercita ou não etc. Na verdade, essas características resultarão da interação de fatores genéticos e ambientais.2

Quando pensamos na inteligência ou personalidade não é diferente.3,4 Assim como a maioria dos aspectos do comportamento humano e da cognição, a inteligência é influenciada por fatores genéticos e ambientais (acredita-se que na proporção de meio a meio). Então, além de influenciada pelos genes, a inteligência também é resultante do ambiente em que a criança se desenvolve, de suas relações em casa e da disponibilidade de recursos educacionais, sua nutrição…3

Já quando avaliamos as questões genéticas relacionadas à cor dos olhos, da pele e os cabelos, é importante compreender que há uma série de genes que atuam na definição dessas características5,6, e o “resultado” não é uma simples replicação das características apresentada pelo doador do espermatozoide e pela mãe biológica.7 Você muito provavelmente conhece algum casal de olhos azuis com filhos de olhos castanhos, e vice-versa, certo? Bem, tudo isso é para ressaltar que optar por um doador com determinadas características não garante que seu filho as manifeste, sejam elas físicas ou não.

O site da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) traz uma lista de clínicas associadas por cidade. Você pode fazer uma busca simples clicando aqui.

Uma questão afetiva e social: quero que meus filhos se pareçam comigo

A Dra. Fabia Vilarino, especialista em reprodução humana pela Faculdade de Medicina do ABC, explica que a busca de muitas famílias por um doador de esperma com fenótipo similar ao seus pode ter base tanto afetiva, de querer filhos que se pareçam com eles, quanto social, já que muitos não querem (ter que) contar e dar explicações sobre uma questão tão íntima e familiar. O jornal inglês levanta ainda que pode haver uma questão racial envolvida,1 já que no Brasil 80% dos mais ricos são brancos.8 Segundo a matéria, essa questão pode pesar na decisão, já que ainda hoje, infelizmente, as características físicas são usadas como indicadores de sucesso econômico e prosperidade no Brasil.1

Qual o peso da escolha de um doador de “sêmen perfeito”?

“Muitas famílias que recorrem a técnicas de reprodução assistida como a fertilização in vitro (FIV) se dedicam tanto a este processo – emocionalmente, financeiramente, seu tempo – que acabam transferindo uma carga muito alta para seu futuro filho”, alerta a Dra. Belinda Mandelbaum, psicanalista e professora associada ao laboratório de estudos da família, relações de gênero e sexualidade, do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).“É como se a criança já nascesse com uma responsabilidade, uma obrigação de ser o filho perfeito”, ressalta.

Mandelbaum lembra que este tipo de exigência também acontece com filhos concebidos naturalmente, e que essa pressão pode ser prejudicial para qualquer criança. “Afinal, quem não quer ter um filho perfeito? Talvez a diferença é que quem recorre ao banco de espermas pode desenvolver a fantasia de que as características de seu filho ou filha dependem de sua escolha, estão sob seu controle”, explica a professora.

A melhor resposta para sua família

Nós, do Fertilidade no Meu Tempo, acreditamos que o mais importante é ter um bebê com saúde e feliz. Por isso, esperamos que seu filho chegue logo, e que seja muito amado independentemente da cor dos olhos, da personalidade ou de quociente de inteligência (QI).

Referências

  1. The Times. Sperm trade booms as Brazil seeks blond babies. Disponível em
  2. https://www.thetimes.co.uk/article/blue-eyed-sperm-boom-sees-imports-rise-3000-s3z8v5lfj. Acesso em maio de 2018.
  3. Orgogozo V, Morizot B, Martin A. The differential view of genotype–phenotype relationships. Frontiers in Genetics. 2015;6:179. doi:10.3389/fgene.2015.00179.
  4. Genetics Home Reference. Is intelligence determined by genetics? Disponível em https://ghr.nlm.nih.gov/primer/traits/intelligence. Acesso em maio de 2018.
  5. Krueger RF, South S, Johnson W, Iacono W. The Heritability of Personality is not Always 50%: Gene-Environment Interactions and Correlations between Personality and Parenting. Journal of personality. 2008;76(6):1485-1521. doi:10.1111/j.1467-6494.2008.00529.x.
  6. Rees JL1. Genetics of hair and skin color. Annu Rev Genet. 2003;37:67-90.
  7. Genetics Home Reference. Is eye color determined by genetics? Disponível em https://ghr.nlm.nih.gov/primer/traits/eyecolor. Acesso em maio de 2018.
  8. The Tech Museum of Innovation. Eye Color. Disponível em http://genetics.thetech.org/ask-a-geneticist/brown-eyed-parents-blue-eyed-kids. Acesso em maio de 2018.
  9. Agência IBGE Notícias. SIS 2015: desigualdades de gênero e racial diminuem em uma década, mas ainda são marcantes no Brasil. Disponível em https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2013-agencia-de-noticias/releases/9626-sis-2015-desigualdades-de-genero-e-racial-diminuem-em-uma-decada-mas-ainda-sao-marcantes-no-brasil.html. Acesso em maio de 2018.
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